Quando o afeto fala mais alto que o DNA: a Justiça e o reconhecimento da paternidade socioafetiva
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A ideia de família no Brasil vem passando por uma transformação profunda. Cada vez mais, a Justiça reconhece aquilo que a vida real já mostrou há muito tempo: paternidade não se resume a vínculo biológico. Decisões recentes confirmam que é possível, em situações específicas, retirar o sobrenome do pai ausente e incluir o sobrenome de quem efetivamente exerceu o papel de pai, com cuidado, presença e responsabilidade.
Esse entendimento não surge por acaso. Ele se apoia no princípio da paternidade socioafetiva, construído ao longo de anos pela jurisprudência brasileira e hoje amplamente acolhido pelos tribunais, inclusive pelo Superior Tribunal de Justiça.
O que está em jogo não é o sangue, mas a relação
Na prática, os tribunais têm reconhecido que o afeto gera efeitos jurídicos. Não basta apenas constar no registro de nascimento: é preciso ter exercido, de fato, o papel parental. Quando o pai biológico se ausenta completamente, sem convivência, sem cuidado, sem responsabilidade afetiva ou material, e outra pessoa ocupa esse lugar ao longo da vida, a Justiça passa a olhar para a realidade concreta daquela família.
É uma mudança de perspectiva importante. O foco deixa de ser apenas a origem genética e passa a ser a função exercida: quem esteve presente nas doenças, nas conquistas, nos desafios diários; quem educou, orientou, protegeu e amou.
A possibilidade de alterar o sobrenome
Dentro desse contexto, decisões judiciais vêm autorizando a exclusão do sobrenome do pai ausente e a inclusão do sobrenome daquele que efetivamente desempenhou a função paterna. Não se trata de um direito automático nem de uma escolha simples. Cada situação é analisada com cuidado, porque envolve identidade, história e vínculos profundos.
Os tribunais avaliam elementos como:
- ausência prolongada ou abandono afetivo do pai biológico;
- inexistência de vínculo emocional ou convivência;
- presença contínua e comprovada do pai socioafetivo;
- reconhecimento público daquela relação como vínculo de pai e filho.
O objetivo central é preservar a dignidade, a identidade e o sentimento de pertencimento de quem cresceu sendo cuidado por alguém que, mesmo sem laço de sangue, sempre exerceu o papel parental.
Provas e análise individualizada
Essas decisões não se baseiam apenas em declarações. O reconhecimento da paternidade socioafetiva costuma exigir um conjunto de provas, como testemunhos, documentos, fotos, registros escolares, histórico de convivência e outros elementos que demonstrem a existência de uma relação sólida, duradoura e pública.
A Justiça deixa claro que cada caso é único. Não existe fórmula pronta, nem decisão genérica. O que se busca é compreender a realidade daquela família e proteger quem, por muito tempo, teve sua história afetiva ignorada pelo registro formal.
Um avanço que reflete a sociedade
Esse entendimento representa um avanço significativo no Direito de Família brasileiro. Ele reconhece que a família não é apenas um dado biológico, mas uma construção diária feita de cuidado, responsabilidade e afeto.
Ao admitir que o nome pode refletir quem realmente esteve presente, a Justiça envia uma mensagem clara: pai é quem cria, quem cuida, quem ama e quem assume. O vínculo afetivo deixa de ser invisível e passa a ser reconhecido como fonte legítima de direitos.
Mais do que uma mudança jurídica, trata-se de uma adequação da lei à vida real. Porque, para além do sangue, família é relação, e o Direito começa, cada vez mais, a respeitar essa verdade.
Fonte: STJ
Texto: Patrícia Steffanello | Assessoria de Comunicação





